terça-feira, 10 de junho de 2008

Dia cinzento

Antigamente ela gostava do inverno e dos seus dias cinzentos, não sabia bem porquê, talvez fosse por ter nascido num mês frio.
Agora esses dias cinzentos fazem com que ela não se queira levantar da cama, com que se esconda debaixo dos lençóis...

Hoje não vou - diz ela à mãe que a vem acordar.

E ali fica embrulhada no ederdon a espreitar timidamente para o céu cinzento através da janela.
É como se tudo lhe caísse em cima nesses dias. Tudo o que lhe assombra a mente sai das gavetinhas e toma a liberdade de se reproduzir como de um filme se tratasse. Algumas memórias já são tão antigas que se misturam com as mais recentes fazendo com que seja sempre um pesadelo diferente.

E ouve a chuva cair. Quando cai. Ouve cair na terra, nas folhas, no parapeito da janela e no telhado do barracão que o pai comprou para arrecadar objectos inúteis mas que não se deitam fora porque... ninguém sabe porquê. Talvez porque dá trabalho. É trabalhoso deitar fora os objectos em si assim como é deitar fora as lembranças e os sentimentos que a eles estão associados.

Fica na cama a ganhar coragem para enfrentar o dia, que é curto e nada proveitoso visto que ficou isolada na casa de campo onde os pais escolheram viver.
Normalmente levanta-se para ir comer algo e sentar-se no sofá com o seu portátil, onde passa o resto do dia a navegar na Internet, mas naquele dia não!
Levantou-se. Observou a sua figura por instantes no espelho que tem em frente à cama. Sempre que acorda pensa que tem de tirar o espelho dali por causa do Feng Shui, leu em algum lado que é desfavorável colocar espelhos em sítios que reflectem a cama e quem lá está a dormir, mas por comodismo ou falta de sítio ainda não o fez e não sentiu nenhuma diferença no ambiente por não o ter feito.
Pegou no mp3 e numa manta e percorreu lentamente o corredor e verificou que não estava ninguém em casa. Ela gosta de estar sozinha naquela casa.
Pegou na chave da porta da cozinha que encontra religiosamente em cima do frigorífico (quando não é ela que a tira de lá e a deixa noutro sítio qualquer), abriu a porta e saiu. Como sempre no alpendre estava a sua cadela a dormir. Deitou-se também e pousou a sua cabeça no ventre do animal. Ligou o mp3 e pela primeira vez ouviu ópera.
O dia estava cinzento, nada de novo tinha acontecido para a deixar naquela inércia, ela ouvia ópera enquanto contemplava a chuva a lavar a terra e encontrava-se aninhada junto da sua cadela que em muitos momentos destes participou, debaixo do alpendre da cozinha onde por segundos vislumbrava um coelhinho ou outro a fugir do seu cão que insistia em persegui-los e era aí que esboçava um leve sorriso e pensava que era um bocadinho mais feliz por ter a oportunidade de se perder naqueles momentos que só ela sabia desfrutar.

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